domingo, 7 de abril de 2013

A grama e o céu


Sento na grama, o dia é ensolarado, os sons de pássaros e o vento cantam ao redor. Vou meditar. O corpo preciso, a postura correta, o hesitante pensamento que ainda vai de lá para cá. Vou meditar.

Sentado estou. Sei o caminho, algo essencial para se meditar corretamente: conheço o mapa e os estados interiores aos quais me destino. São catalogados, explicados, escritos com precisão em línguas antigas e caracteres fascinantes, desenhados a pincel de pelo de iaque nos monastérios do Tibet, delineados sobre folhas secas de palmeira no sul da Índia. Embora as metáforas sejam esforçadas, embora os mestres que descreveram esses estados tenham sido tão claros quanto possível, ainda assim foi pouco, inevitavelmente pouco. As palavras de quase todas as línguas foram inventadas para descrever aquilo que se pode pegar, e são pobres para manejar o sutil. Por mais mapas que eu tenha lido, por mais instruções que eu tenha recebido, os estados de meditação serão sempre bem mais interessantes.

E lá vou eu. O corpo físico se manifesta, reclamando como sempre. Ah, o pé vai doer, ele diz. Estica a perna um pouquinho. Mas e as costas? E, ih, acho que tem formiga nesta grama. E se um pernilongo me picar? Eu ouço com carinho as reclamações, mas em não mais do que alguns segundos coloco as pernas, os braços, a cabeça e o tronco na posição mais adequada. É confortável, e logo sei que o corpo vai esquecer de reclamar.

Respirando, atento ao ar que flui em meus pulmões, passo ao nível seguinte. Observo as minhas emoções. Mas e se eu não conseguir meditar direito hoje? O sentimento, que sempre vem, veio de novo hoje. Calma, eu não digo porque não preciso dizer, mas imponho ao meu corpo emocional: calma. E vêm uns medos, a preocupação com o passado não resolvido, a ansiedade inevitável, tão humana, sobre tudo o que é futuro.

Eu então me lembro (como tantas vezes me lembro) do Buddha meditando sob a figueira, a árvore bodhi. A linguagem figurada do relato que chegou até a gente conta como ele meditou por um longo tempo. E vieram animais, rugindo, furiosos; vieram cobras sinuosas e cheias de veneno; vieram demônios para atrapalhar sua concentração, apsaras nuas dançando e incitando seu desejo. E o Buddha, de olhos fechados, continuou meditando. Os desafios do jovem Buddha são simbólicos, cada um deles uma emoção, um empurrão do fundo da nossa mente a tentar nos fazer parar de meditar. Cada monstro é um pensamento, cada imagem um desvio do caminho.

Medito. Os monstros passam, eu nem ligo. Os medos ventam, eles que soprem. Vou embora do núcleo emocional, que, privado da minha atenção, logo fica calado; é como uma criança que só faz birra quando alguém presta atenção.
Sigo para o campo da mente abstrata, o nível mental, onde habitam ideias e conceitos. Do alto dele, entro no reino da intuição. O mundo interno se abre, a visão acorda. Eu voo.

Dentro de mim, eu percebo levemente o canal pingala, azul-claro suave, por onde flui uma energia de certas características. Do outro lado do corpo há o ida, de uma cor rosada vívida, com energias opostas. Puxo ambos para o centro, e a energia sobe por mim, coluna acima, alimentando e acendendo os chakras, incandescendo o canal mais forte e importante, oshushumna, amarelo-sol.

Dentro de mim há tanta energia que eu nem consigo mais me mover. A respiração, que havia sido profunda e rítmica, se torna mínima e rasa, embora ainda lenta. O corpo físico é uma lembrança distante, um algo esquecido lá embaixo, como se visto do alto de um balão. Sou mais real do que era minutos atrás. Isto sou eu, e o que há dentro disto, e o que haverá dentro do dentro disto.

Com o shushumna iluminado, sigo com a consciência até o centro do salão onde se pensa, o cérebro vazio, o lugar íntimo de se ser. Encho o salão com a luz que vem do canal brilhante; ela toma o salão inteiro, primeiro tornando-o claro, depois fazendo ser quase impossível o pensar; os pensamentos são devorados pela luz. Como eu planejei uma meditação simples, não vou investigar chakras, nem olhar cores internas, nem buscar efeitos especiais à la spielberg e outros tais. O plano é adentrar a luz.

E mergulho no silêncio, onde não há mais nada com forma; existe apenas a essência da forma. É o poder que sustenta tudo, que faz o mundo existir, que permite que a minha consciência tenha algo do qual se conscientize. É a tela, sobre a qual a existência depois é pintada em tantas cores.
É um nível chamado de sat-chit-ananda, um encontro com a matéria-prima de tudo. Quando se está imerso nesta energia primordial, só existe sat, a verdade sem causa; chit, a consciência de quem medita; e ananda, um êxtase místico, o nascer de mil sóis.

Eu aprecio a experiência, sabendo que será difícil, depois, recordar completamente o que vivo.

Quando ouvi isso pela primeira vez — que a parte mais externa da mente tem dificuldade de registrar o mais sutil —, parecia bobagem. Algo tão intenso não pode ser esquecido, eu pensava. Mas, na consciência do dia-a-dia, as coisas do profundo da alma são lembradas restritas e planas como uma fotografia, uma flor seca sem cheiro, uma letra de canção sem música.

Saio devagar do estado em que estava, chamado de savikalpa samadhi. Existem outros estados mais profundos, além da luz, como o nirvikalpa samadhi — mas sobre eles não há o que se dizer, e nem os visitei hoje. Lentamente, a consciência volta para o plano mais comum.

Ao meu redor, pássaros piam. A grama se espalha, verde e indiferente ao que meditei ou não. Me sinto como se fosse um avião que acaba de aterrissar depois de uma longa viagem. O meu corpo parece estranho, interessantíssimo, mas não bem meu; sou um hóspede. As cores, todas, são incomuns como se eu as visse pela primeira vez. A mente está vazia. Eu não penso.

Aquilo que encontrei no mais profundo de mim é tão real que o mundo aqui fora parece de papelão. As pessoas, as ideias. Os medos. Como quando eu era pequeno, menino, e ia bisbilhotar os bastidores do teatro, a magia feita de cola, brocado e panos costurados.
Conforme os minutos passam, os pensamentos voltam à minha mente. Primeiro apenas os mais elevados e sutis. Estendo as pernas, estico os braços. Ouço algumas pessoas falando lá longe, e a conversa parece quase uma agressão à serenidade, espantando algo sublime. As gentes não precisariam falar, concluo.

Eu sei, porém, que em duas horas ou menos os efeitos da meditação vão ter se dissipado. Eu acharei meu corpo completamente normal. O mundo será de novo sólido. Estarei tagarelando novamente, falando bobices e coisas sábias, como todos. Esquecerei o que senti, o que vi. Tem problema, não.

Amanhã eu recomeço.

Não há nada de extraordinário ou fantástico nessa meditação. Na verdade, é uma das mais simples, embora alcance uns andares bastante elevados. Mas o que eu descrevo é seu, você que me lê: seu seu seu, inalienavelmente seu. É shakti, a matéria-prima da sua alma, e é a matéria-prima que, diluída e em movimento, cheia de corantes e texturas, constrói o que a gente chama de mundo real.

Extraordinário é você.

Satyanatha

Publicado originalmente em O Nome do Mundo

















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